A perda da audição é um assunto recorrente nas conversas entre músicos. E aqui escrevo como flautista! Talvez pela experiência de Ludwig van Beethoven, que perdeu progressivamente a audição a partir dos 26 anos, carregamos conosco um sofrimento ao imaginarmos sua vivência. Compor, reger e tocar um instrumento e não poder usufruir do som é simplesmente aterrorizante. Mas sabemos também que a perda da audição é inevitável com a idade e, assim, sofremos com a possibilidade de não nos comunicarmos mais através da música.
Este texto se foca num estudo publicado em 2018 pelos pesquisadores Marie-Élaine, Isabelle e Benjamin, do Laboratório internacional de pesquisa em cérebro, música e som (BRAMS), Montreal – Canadá. A pesquisa mostra que o envelhecimento acarreta uma queda nas habilidades auditivas e cognitivas humanas. Porém, a investigação aponta que a nossa percepção sobre a estrutura musical pode ser similar ou ainda melhor do que a experienciada por jovens adultos. Em outras palavras, apesar das mudanças neurofisiológicas relacionadas à idade, a maneira como percebemos a estrutura tonal é preservada.
Marie-Élaine, Isabelle e Benjamin explicam que estudar a percepção da estrutura tonal é uma estratégia metodológica utilizada nesse tipo de pesquisa, uma vez que nós, ocidentais (músico e não músicos), somos expostos a músicas tonais ao longo de nossas vidas e acabamos adquirindo um conhecimento implícito, sem treinamentos formais, apenas pela vivência na cultura ocidental e pela forte exposição passiva ao sistema tonal.
A autora e seus colegas explicam que a dificuldade de ouvir, relacionada à idade, se dá pelas mudanças nas estruturas físicas do ouvido interno e pelo processamento central em receber as informações sonoras. Desta maneira, ocasiona diversas dificuldades e a mais comum seria a dificuldade de compreensão do discurso. E aí vem a pergunta de pesquisa: E o discurso musical? Ele também está comprometido com a perda da audição?
O estudo analisou a atenção, ou melhor, uma atenção intencional em adultos mais jovens (18 a 35 anos) e mais velhos (59 a 73 anos). Foi concluído que os adultos mais velhos focam em estímulos auditivos específicos, na tentativa de contrapor a perda de habilidades auditivas pela idade. O que faz com que sua compreensão auditiva seja similar ou ainda melhor, se comparado com adultos mais jovens.

Este estudo me conduz a pelo menos duas reflexões: a perda da audição, em decorrência da idade, não necessariamente excluirá a compreensão musical de nossas vidas e; quanto mais sabemos de nossas dificuldades, mais nos esforçamos para fazer melhor, a velha máxima de conhecer seus limites para superá-los.
E você? Já conhecia este estudo? Ficou interessando em mais detalhes? O link de acesso à pesquisa está logo abaixo, onde você poderá acessar o estudo na íntegra.

Thaís Fernandes é flautista, cientista e mãe do Francisco. E assim segue construindo pontes entre a ciência e as artes.
