Humanizar dados científicos

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Para compreender um fenômeno é necessário que os cientistas construam dados e que gerem informações que os conduzam ao entendimento deste fenômeno. Estes dados, muitas vezes, são apresentados nas pesquisas em formato de números, estatísticas, valores, jargões, gráficos que podem não ser completamente claros, até mesmo para um pesquisador experiente de outra área do conhecimento, imagine, então, para os não cientista.

Nas ciências sociais, em especial, o objeto de estudo tem percepções e opiniões sobre ele mesmo, sobre o fenômeno que está sendo estudado e sobre o cientista e, desta maneira, ele pode e, muitas vezes, atua, interferindo no experimento. Isso porque o objeto de estudo é, frequentemente, o “humano” e, consequentemente, gera dados com a mesma origem. Humanizar os dados científicos é dar nomes, cores, formas, movimentos, expressões e sentimentos a este objeto de estudo.

Discuto, aqui, a utilização do audiovisual na comunicação pública de uma pesquisa científica e trago o que para mim é um exemplo importante de percepção e identificação com resultados de uma pesquisa. Assim, discuto o estudo Pesquisa Nacional de Aborto 2016, dos autores Debora Diniz, Marcelo Medeiros e Alberto Madeiro, e o documentário Eu vou contar, produzido pela Anis – Instituto de Bioética, dirigido pela primeira autora da pesquisa.

É importante mencionar que eu não vi ou ouvi nenhuma referência da autora (Debora Diniz) sobre este documentário ter o caráter de uma comunicação pública de ciência. Esta é a minha percepção sobre o vídeo. Expresso aqui a minha impressão, como espectadora do documentário, minha experiência de ver e ouvir as vozes das mulheres, que deixaram de ser dados e números para serem humanas.

A investigação científica mostra os resultados da Pesquisa Nacional de Aborto de 2016 e busca estimar a dimensão  do fenômeno aborto no Brasil, comparando com a pesquisa realizada em 2010. O estudo está inserido, também, nas ciências sociais e, para a realização do mesmo, buscou-se diversas estratégias para manter o sigilo das respostas e para que fosse possível o aumento das respostas verdadeiras.

A pesquisa mostra que o fenômeno aborto é comum no Brasil e, contrariamente aos esteriótipos, a mulher que aborta também é uma mulher comum. Em outras palavras, o aborto ocorre de maneira frequente, sendo que quase uma em cada cinco mulheres brasileiras, aos 40 anos, fez um aborto. Essas mulheres pertencem a todas as regiões do país, todos os grupos raciais e todos os níveis educacionais. Elas são parte de todas as religiões praticantes no Brasil e estão em todas as classes sociais.

A pesquisa traz a reflexão de que se o aborto é ilegal no Brasil, é portanto realizado sem atenção plena à saúde das mulheres. Isso faz com que o aborto, considerando-se o tamanho deste fenômeno, seja um dos maiores problemas de saúde pública. Assim, as informações e evidências apresentadas pela pesquisa, se tornam úteis para as decisões políticas do Estado. Desta maneira, os dados geram informações e reflexões sociais e científicas.

Mas é através do documentário Eu vou contar que este “objeto” ganha vida. O vídeo mostra mulheres contando suas experiências e, assim, nos aproximamos do simbólico e da linguagem do objeto estudado e vamos sendo conduzidos à compreensão do fenômeno e a sua dimensão.

Todos estes dados, que caracterizam o objeto estudado e criam as informações mencionadas pela pesquisa (que a mulher que aborta é uma mulher comum), se tornam perceptíveis no documentário. Podemos ver e ouvir as palavras, podemos ver os lugares de onde elas falam, podemos interpretar suas escolhas e desejos a partir da nossa experiência como audiência. Assim, a pesquisa cumpre duplamente sua intenção, alencar evidências e reflexões sobre um fenômeno social e traz para o sentir os resultados da investigação.

E você? Já conhecia este estudo? Ficou interessando em mais detalhes? O link de acesso à pesquisa está logo abaixo, onde você poderá acessar o estudo na íntegra.


Thaís Fernandes é flautista, cientista e mãe do Francisco. E assim segue construindo pontes entre a ciência e as artes.


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