Sabe aquele movimento dos guitarristas, movendo a cabeça para frente e para trás, enquanto tocam em um show de rock? Ou aquele gesto circular dos corpos dos pianistas durante uma perfomance? Hoje vamos falar desses movimentos, mas não sobre como o roqueiro ou o pianista se movimentam, mas como você percebe o movimento deles.
Este texto irá abordar uma pesquisa da década de 90 e, embora muita coisa tenha mudado de lá pra cá*, ainda é um trabalho muito mencionado por estudiosos do movimento físico na música.
Jane Davidson (autora da pesquisa) tinha uma pergunta a ser respondida: Qual a importância da percepção visual para quem assiste uma performance musical? Uma pergunta excepcional, considerando-se que, para muitas pessoas, a música é constituída apenas por som. Jane mostra que, durante muito tempo, a percepção do movimento dos músicos foi totalmente ignorada e, para ela, tornou-se importante observar as informações percebidas pela visualização dessas performances.
Ela compreendia, por estudos anteriores, que nós podemos inferir, por exemplo, sobre o peso de uma caixa, somente pela observação de alguém pegando ou carregando a mesma, ou podemos perceber a maneira de caminhar/correr de uma pessoa, apenas pela visualização dos seus movimentos. Além disso, Jane mostrou outras conclusões de que, através da percepção visual, um observador era capaz de inferir sobre informações emocionais, cognitivas e da personalidade de alguém.
Assim, para responder a sua questão, Jane criou um experimento. Ela pediu para que os músicos tocassem de três maneiras diferentes: sem expressão; projetada e exagerada.
Em seguida, apresentou estas performances para dois grupos de observadores* com três estímulos diferentes: 1) somente ouvindo os trechos gravados; 2) somente vendo e, por fim, 3) vendo e ouvindo os trechos.

Jane escolheu representar os corpos dos músicos com a técnica dos pontos de luz. Assim, era possível visualizar somente o contorno dos corpos em movimento. Desta maneira, ela eliminou informações como, por exemplo: o espaço em que aconteciam as performances, os cabelos, as roupas ou até mesmo algumas características físicas dos corpos dos músicos.
Foi solicitado aos observadores que identificassem, a partir das performances, a taxa de expressividade percebida numa escala de sete pontos, que variava de sem expressão a exagerada.
Jane mostrou que os espectadores foram capazes de identificar as diferentes variações das performances e que a percepção visual foi a que mais possibilitou a identificação entre as condições projetada e exagerada.
Porém, Jane percebeu que cada músico comunicava sua expressividade de uma maneira particular, como uma “assinatura”, e isso estava sendo percebido pelos observadores que identificavam os músicos através das taxas de classificação expressivas. Assim, ela viu a necessidade de criar outro experimento com apenas um músico tocando nas três condições diferentes.
Com os resultados do 2º experimento, Jane Davidson mostrou que os estímulos, somente vendo e vendo e ouvindo os trechos, permitiram uma maior distinção entre as condições projetada e exagerada e, desta maneira, ela mostra que a visão é o recurso mais óbvio de informação sobre expressividade.
Assim, Jane responde sua pergunta inicial, mostrando que a visão contém mais informações que o som para a construção da percepção de quem assiste a performance. Ela enfatiza que, muitas vezes, foi somente através do estímulo visual que os observadores foram capazes de diferenciar as três condições de performance.
Com este estudo, Jane Davidson abre novas possibilidades de investigações sobre a importância do visual para a percepção de uma performance musical. Desta maneira, o convite para o diálogo que Jane nos faz se torna tão atual e necessário para o nosso fazer e ensinar musical. O estudo continua, ainda hoje, nos impulsionando a refletir sobre a percepção de quem presencia uma performance e sobre como os nossos corpos se expressam através de movimentos.
E você? Já conhecia este estudo? Ficou interessando em mais detalhes? O link de acesso à pesquisa está logo abaixo, onde você poderá acessar o estudo na íntegra.
*1) O avanço tecnológico tem nos proporcionado equipamentos mais robustos para a captura de movimento humano, possibilitando maiores detalhes do movimento humano.
*2) No 1º experimento, participaram 21 estudantes de graduação em música como participantes ouvintes. No 2º experimento, a pesquisadora contou com 34 estudantes de música para a mesma tarefa.

Thaís Fernandes é flautista, cientista e mãe do Francisco. E assim segue construindo pontes entre a ciência e as artes.
