E aí, passarinho? Que som é esse?

Galinha, bem-te-vi, joão-de-barro, pombo, pato, papagaio, calopsita… Todas as aves emitem algum tipo de som (também chamado de vocalização) através de um órgão com função similar às nossas cordas vocais. Enquanto alguns desses sons despertam fascínio ou até estranhamento, outros são tão cotidianos que mal são notados.

Esse é o primeiro texto de uma série de postagens sobre alguns aspectos relacionados a vocalizações das aves, com foco especial nas que conseguem (e precisam) aprender a cantar durante a vida.

Leia o texto escutando as vocalizações. Espero que essa leitura aguce seus ouvidos.

A vocalização é a principal forma de comunicação entre a maioria das aves. É através desse som que elas podem alertar algum tipo de perigo, pedir ajuda, flertar ou até mesmo defender seu território. As vocalizações podem ser de dois tipos principais: a de chamado e o canto.

O chamado costuma ser mais simples, com sons compostos por poucas notas musicais e é usado principalmente entre um filhote e seus pais, comunicando, por exemplo, a presença de predadores. O canto é uma vocalização geralmente bem mais complexa que o chamado e é composta por séries de notas emitidas em sequência. Também é uma característica do canto ser distinto entre espécies, por isso especialistas e entusiastas de aves muitas vezes conseguem identificar a espécie do animal por essa característica.

Em geral, quem canta é o macho, que solta a voz principalmente durante o período reprodutivo da sua espécie, já que o canto tem um papel importante na conquista de parceiras. Mas isso já é história para a próxima postagem.

A vocalização que você vem ouvindo desde o início do texto é um chamado da espécie Cyphorhinus arada, conhecida popularmente como uirapuru.


O próximo som também é uma vocalização de uirapuru, mas dessa vez você ouvirá o canto desse pássaro. Vamos lá?

Em algum momento da sua vida você deve ter se perguntado se as aves aprendem a cantar ou já nascem sabendo. Bom, o padrão de canto pode ser exclusivamente genético (chamado de estereotipado) ou aprendido, que também depende de uma base genética, mas é muito influenciado pela experiência de ouvir outros indivíduos. Alguns exemplos de aves com canto estereotipado são os pombos, corujas, tucanos, galinhas, pavões e pica-paus. Já as araras, papagaios, beija-flores, bem-te-vis, sabiás, joão-de-barro, tico-ticos, calopsitas e chupins são algumas das aves com canto aprendido. 

Chupim (Molothrus bonariensis). Foto de Daniel Talevi.

O processo de aprendizagem exige que os filhotes tenham contato com o canto de indivíduos adultos da mesma espécie para desenvolver de forma completa o padrão de canto característico. Filhotes que não escutam o canto da própria espécie acabam desenvolvendo um canto “aberrante”, que pode ser bem diferente do geralmente visto na espécie.

 O fato de algumas aves precisarem desse complemento social para desenvolver seu canto acaba se relacionando a um fenômeno superinteressante: o surgimento de sotaques. Não, você não leu errado. Apesar dos padrões de canto serem exclusivos de uma espécie, eles não são idênticos em todos os indivíduos. Da mesma forma que falantes da Língua Portuguesa podem ter variações de pronúncia dependendo da região que nascem, grupos da mesma espécie de aves podem ter cantos levemente distintos de acordo com seu habitat.

O surgimento dos sotaques provavelmente está relacionado com as características geográficas dos habitats de algumas aves. Por exemplo, os caramanchões-cetim (Ptilonorhynchus violaceus) que vivem em florestas abertas cantam em uma frequência (velocidade que o som se propaga no ar) mais alta que os que vivem em florestas mais densas. Isso acontece porque sons de frequência mais alta são menos degradados em habitats abertos do que fechados, o que permite que o canto dessas aves consiga ser ouvido a distâncias maiores. Os filhotes, ao ouvirem o canto dos “veteranos”, acabam espelhando seu canto ao deles e, assim, desenvolvem um canto mais adaptado ao ambiente em que vivem.

Caramanchão-cetim (Ptilonorhynchus violaceus) durante seu ritual de conquista da fêmea, que inclui cantar, construir um “caramanchão” (daí o nome popular) e reunir objetos azuis. Merece ser protagonista de um post no futuro. Foto de Julius Simonelli.

Quer ouvir alguns sotaques? Clique aqui e veja exemplos bem legais (página em inglês).

Agora que você leu esse texto, fique com os ouvidos atentos para perceber a melodia dos pássaros ao seu redor e se aventure tentando distinguir chamados de cantos.

Referências:

Alcock, John. Entendendo as causas proximais e distais do canto das aves. In: Comportamento Animal – Uma Abordagem Evolutiva. 9a Edição. Artmed, 2011. p. 29-61.

O chamado e o canto do uirapuru foram gravados por Jerome Fischer e retirados do site https://xeno-canto.org.

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