Cantada de pedreiro? Que nada!

Pensa na melhor cantada que você já deu. Com certeza não é tão boa quanto essa. 

Ligou o som?

Esse é o segundo texto de uma série de postagem sobre vocalizações de aves, com foco especial nas que conseguem (e precisam) aprender a cantar durante a vida. Se você ainda não leu a primeira, clique aqui.

No último post da série vimos que uma das funções do canto dos pássaros é o flerte. Conquistar parceiras usando o vocal como principal atributo é uma tarefa trabalhosa e vamos ver adiante que os machos precisam caprichar para arrebatar o coração das fêmeas.

O que você está ouvindo é o canto de um macho escrevedeira-dos-pântanos (Melospiza georgiana) tentando conquistar fêmeas que podem estar por perto. As fêmeas dessa espécie são ouvintes extremamente exigentes e preferem machos que consigam dar trinados (som com alternância rápida entre duas notas próximas) bem rápidos. A questão é que quanto mais rápido um trinado, mais difícil ele é de ser reproduzido, ou seja, os machos precisam se esforçar muito e utilizar todo seu potencial vocal para causar uma boa impressão na futura parceira.

Escrevedeira-dos-pântanos (Melospiza georgiana). Foto de Cephas.

Julgar um macho pelo seu desempenho vocal é bem comum nas aves que aprendem cantos, uma vez que ele pode dar pistas sobre a saúde do pretendente. Por exemplo, em um experimento, pesquisadores separaram filhotes machos de diamante-mandarim (Taeniopygia guttata) em três grupos. Enquanto um grupo se desenvolvia normalmente, os outros dois eram induzidos ao estresse recebendo menos comida ou alimento com corticosterona (um dos hormônios envolvidos no estresse) dissolvida. Quando maiores, o canto dos grupos foi gravado, analisado e apresentado para fêmeas da mesma espécie.

O resultado foi que os machos estressados tinham o canto mais curto e menos complexo do que os machos não induzidos ao estresse. O comportamento das fêmeas você já imagina, certo? Elas preferiram voar para perto das gravações que tocavam o canto mais complexo dos machos que não passaram por estresse induzido.

Diamante-mandarim (Taeniopygia guttata). Foto de JJ Harrison.

Gostou do texto? Cuidado para não ficar “de vela” quando estiver ouvindo essas cantadas por aí!

Referências:

Alcock, John. Entendendo as causas proximais e distais do canto das aves. In: Comportamento Animal – Uma Abordagem Evolutiva. 9a Edição. Artmed, 2011. p. 29-61.

K.A Spencer, K.L Buchanan, A.R Goldsmith, C.K Catchpole. Song as an honest signal of developmental stress in the zebra finch (Taeniopygia guttata). Hormones and Behavior, Volume 44, Issue 2, 2003, p. 132-139. https://doi.org/10.1016/S0018-506X(03)00124-7.

O canto do escrevedeira-dos-pântanos foi gravado por Christopher McPherson e retirado do site https://xeno-canto.org.

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