Aah, a comunicação! Os seres vivos estão a todo momento mandando e interpretando sinais visuais, sonoros e químicos, por exemplo. As cores “de aviso” comunicam a um possível predador do sapo Adelphobates galactonotus que ele tem toxinas. Baleias-jubartes possuem uma vocalização complexa que permite com que elas se comuniquem entre si mesmo a quilômetros de distância. É através de feromônios que machos de Mariposa da espécie Creatonotos gangis conseguem atrair fêmeas e ao mesmo tempo repelir machos que estão nas proximidades.
Mas e quando esses sinais são deliberadamente falsos?
Algumas orquídeas australianas enganam machos de vespas da subfamília Thynninae ao liberarem uma substância muito similar ao feromônio que as fêmeas liberam quando estão em período reprodutivo. Para melhorar ainda mais o disfarce, as pétalas chamarizes (pétalas usadas para atrair polinizadores) se parecem, em certa medida, com as fêmeas. O resultado é que os machos podem cair nessa cilada e chegar às vias de fato. Sim, é isso mesmo que você entendeu. Eles “copulam” com uma flor. O termo correto para descrever o fenômeno é, na verdade, pseudocópula.
Passar uma mensagem falsa é uma ótima estratégia para as orquídeas, já que o macho das vespas, ao tentar copular com a flor, se enche de grãos de pólen e pode levá-los para outra orquídea, caso ele seja enganado novamente. Mas não pense que essas vespas são tão bobas assim! Os machos podem ser iludidos uma vez… e talvez duas, mas logo aprendem a lição e se afastam de locais que tenham essas plantas.

Outro exemplo impressionante é o dos cucos. Eles, assim como algumas outras aves, são parasitas de ninho, ou seja, as fêmeas botam seus ovos em ninhos de outras espécies e quando o filhote nasce recebe o cuidado apenas dos seus pais adotivos. No caso das mamães-cuco, elas botam um único ovo, que choca mais rápido que os nativos e, quando o filhote nasce, muitas vezes joga seus “irmãos” para fora do ninho. Apesar de poderem ficar maiores que os pais adotivos, os filhotes de cuco usam estratégias para manter as aparências. Eles imitam sinais visuais e acústicos que os adultos da espécie que teve seu ninho parasitado utilizam para decidir qual filhote eles devem alimentar mais.
Os sinais visuais são os de se esticar mais para receber alimento e movimentar a cabeça com o bico bem aberto. Os sinais acústicos acontecem quando o filhote de cuco consegue imitar a vocalização dos filhotes do hospedeiro ao pedir alimento com muita insistência. Essa imitação pode ser vista principalmente em cucos que são especializados em parasitar a ninhada de uma espécie, como é o caso do cuco Chrysococcyx basalis, que geralmente parasita ninhos de Malurus cyaneus e, por isso, tem vocalização muito semelhante aos filhotes dos hospedeiros. Dessa forma, os impostores conseguem os recursos necessários para crescer com toda a atenção dos pais adotivos.


Não julgue mal os nossos trapaceiros por passarem a perna em outros organismos. As suas estratégias são fruto de longos anos de evolução e são essenciais para garantir a sobrevivência dessas espécies, o que contribui para manter o equilíbrio ecológico do habitat em que eles vivem.
Referências:
Alcock, John. O desenvolvimento do comportamento. In: Comportamento Animal – Uma Abordagem Evolutiva. 9a Edição. Artmed, 2011. p. 63-105.
Alcock, John. O controle do comportamento: mecanismos neurais. In: Comportamento Animal – Uma Abordagem Evolutiva. 9a Edição. Artmed, 2011. p. 107-147.
Yong, Emma. Deceptive orchids: luring wasps for pollination. Australian Geographic, 2014. Disponível em <https://www.australiangeographic.com.au/topics/science-environment/2014/09/deceptive-orchids-luring-wasps-for-pollination/>. Último acesso: 25 de jan. 2022.
