Bom, se você está na internet, certamente o algoritmo te pegou com alguma resenha de “Não Olhe Pra Cima”. Sejam opiniões favoráveis ou contrárias, foi difícil fugir, então é provável que você já saiba em que concerne o filme. A questão que trago aqui é outra.
Quando se trata de meteoritos, há algumas confusões que permeiam o imaginário coletivo. Embora seja de conhecimento popular que há eventos de extinção em massa associados aos impactos, não há muito esclarecimento sobre como de fato isso acontece. No filme, por exemplo, os cientistas centram sua preocupação no tamanho do corpo rochoso que viaja em direção a Terra. “De proporções monstruosas e nunca antes vista” dizem, “e vai causar maremotos que vão varrer os continentes”.

Claro, as preocupações exaltadas pelos cientistas do filme são embasadas, mas será que o tamanho avantajado do meteorito seria sua característica mais temerosa? Nos campos de estudos astronômicos pairava certa questão.
O planeta Terra foi bombardeado por meteoritos diversas vezes. Nesses eventos, o impacto gerado acarretava em poeira atmosférica que se dissipava até cobrir a superfície com sedimentos, desequilibrando a complexa dinâmica de vida terrestre. Essa reação em cadeia é considerada como um gatilho causador de extinções em massa ocorridas ao longo do tempo geológico.

Pouco a pouco, os dados foram demonstrando que as dimensões do meteorito não seriam o principal fator determinante de seu poder de destruição. Então o que seria? Essa é a pergunta que se fizeram os cientistas da equipe multidisciplinar da Universidade de Liverpool (Inglaterra) e do Instituto Tecnológico y de Energías Renovables (Espanha).
No entanto, um enigma surgia na conversa ao observar a série histórica desses eventos. Isso por que alguns meteoritos conhecidos pelo seu poder de destruição, como o K/Pg Chixulclub, que desencadeou a extinção dos dinossauros, não são exatamente os maiores. Na verdade, seu tamanho é inferior ao de muitos outros meteoritos que atingiram a terra sem gerar esse estrago todo.
O 4º maior impacto conhecido, com um diâmetro de cratera próximo dos 48 km, não foi responsável por um evento catastrófico. No entanto, 5 milhões de anos atrás houve uma extinção em massa acarretada por um corpo rochoso com metade do tamanho.
A equipe resolveu utilizar um método novo: centraram esforços em analisar as características mineralógicas da poeira que é lançada na atmosfera, em decorrência da colisão. Foram estudados 44 impactos ocorridos nos últimos 600 milhões de anos. As descobertas foram publicadas no Journal of the Geological Society of London, no final de 2021.

Os dados gerados revelaram que o local atingido pelo meteorito viria a ser o que determina, principalmente, a sua chance em ocasionar extermínios. Independente do tamanho, todos os meteoritos analisados que atingiram rochas ricas em feldspato potássico correspondem a um episódio de extinção em massa. O problema para nós, humanos, é que este mineral é extremamente comum na crosta terrestre, principalmente em maciços rochosos. Há grandes chances de que você conheça, pois ele costuma ser a cor alaranjada no granito da pia do banheiro, ou da cozinha.
“O feldspato de potássio não é tóxico. No entanto, é um poderoso aerossol mineral nucleante de gelo que afeta fortemente a dinâmica das nuvens, o que as faz deixar passar mais radiação solar. Isso, por sua vez, aquece o planeta e muda o clima. A atmosfera também se torna mais sensível ao aquecimento das emissões de gases de efeito estufa, como grandes erupções vulcânicas”, explicou o sedimentólogo de Liverpool, Dr. Chris Stevenson, da Escola de Ciências da Terra, Oceano e Ecologia da Universidade e foi coautor do estudo.

Já dizia o ditado, tamanho não é documento.
E sobre o filme, apenas uma opinião:

O artigo `Meteorites that produce K-feldspar-rich ejecta blankets correspond to mass extinctions’ (doi.org/10.1144/jgs2021-055) está publicado na revista Geological Society of London.
As imagens da postagem estão todas disponíveis no bancos de imagens da Nasa.

