Este mês o assassinato de Sakine Cansiz, Fidan Doğan e Leyla Şaylemez completou nove anos. Até bem pouco tempo esses nomes me eram desconhecidos, e acredito que ainda sejam pra você. Achei de uma pena sem tamanho, pois é daquelas histórias que mudam o mundo, sabe? E, de fato, mudaram. Mas numa parte negligenciada distanciada de nós. Aqui contamos a história de uma dela, Sakine, que é referência de luta entre as corajosas mulheres curdas .

“Em Paris, no coração da cidade, os corpos sem vida de três mulheres estão deitados no chão com a cabeça em uma poça de sangue: uma execução a sangue frio na noite de 9 de janeiro de 2013 . O investigador francês, revisando as evidências concluiu que o Serviço Secreto Turco estava “implicado” no triplo assassinato ocorrido no coração da Europa. Uma ação sem barulho, sem arrombamento, dentro do Gabinete de Informações Curdo. As vítimas, Sara (Sakine Cansiz), Rojbin (Fidan Doğan) e Ronahi (Leyla Şaylemez), eram todas ativistas do Movimento de Libertação das Mulheres Curdas.” Assim descrevem os autores do livro Ecological Solidarity and the Kurdish Freedom Movement, de 2021.(livro)
Primeiras coisas primeiro…
Os curdos são um grupo étnico formado por mais de 40 milhões de pessoas, residentes principalmente na área controlada pelos estados modernos da Turquia, Irã, Síria e Iraque. Com a dissolução do Império Otomano após a Primeira Guerra Mundial, a grande região curda (Curdistão) foi desmembrada e seu povo passou a ser encarado como uma das maiores nações apátridas do mundo.
Sakine Cansiz era uma mulher curda nascida em 1958 num vilarejo de Dersim, ao norte do Curdistão. Tida como “câncer” do sistema nacionalista-estatista da República Turca, a população de Dersim foi submetida ao genocídio em 1938, após uma revolta liderada por Seyit Riza. Relatos contam que 70.000 pessoas foram mortas em bombardeios e outras dezenas de milhares deportadas pelo estado turco. O nome Dersim foi apagado dos mapas e substituído por Tunceli, traduzido como “punho de ferro”, com o objetivo claro de inspirar medo e obediência nos moradores da região.

É nesse berço que Cansiz vem ao mundo. Uma “garota das montanhas rebeldes de Dersim” que, assim como outros jovens de sua geração, cresceu afastada de sua identidade curda. A virada-de-chave ocorreu quando ela conheceu os militantes da classe trabalhadora, autodenominados “revolucionários curdos”, e que se organizavam ao redor de Abdullah Ocalan. (revistas)
“Rebelde e emotiva por natureza, Sakine Cansız sentiu-se atraída pelos revolucionários curdos não apenas pela teoria revolucionária, mas por identificar neles a capacidade de sentir a dor do povo.” Conforme reportagem realizada na ocasião de sua morte.
PPK e O Movimento de Liberdade das Mulheres Curdas (KWFM)
Nos anos 70 Cansiz já estava completamente entregue à causa e começou a trabalhar em fábricas com o propósito de organizar as mulheres trabalhadoras, dando início ao projeto que viria a ser um dos marcos no movimento feminista do Oriente Médio. Aos 20 anos de idade (1978), torna-se uma das fundadoras do PPK (Partido dos Trabalhadores do Curdistão) ao lado de Ocalan, e cria o “Movimento de Liberdade das Mulheres Curdas” (KWFM).

KWFM é descrito como um movimento anarco-feminista centrado na construção de um “ethos igualitário, que promova o envolvimento das mulheres na democracia direta e na liberdade pública de associação.” Na construção de suas bases filosóficas, o movimento inaugurou uma palavra para melhor assentar sua ideologia: Jineoloji.
Nas palavras de Ocalan, Jineoloji promove especificamente os ideais feministas baseados no argumento de que a democracia e a liberdade dentro da sociedade só serão alcançadas se as mulheres forem livres e suas experiências na sociedade forem amplas. “A mulher pode quebrar as estruturas de dominação, instaurando uma revolução social capaz de colocar a humanidade e a biosfera no centro da vida.” No livro The Sociology of Freedom (2008) ele descreve a base epistemológica do grupo que buscou vivenciar os conceitos que propuseram.
Prisões e a Liberdade
Aos 22 anos, Sakine Cansız foi presa sob a acusação de organizar as mulheres curdas contra a opressão patriarcal. Passou 12 anos sofrendo torturas na prisão de Diyarbakir, considerada ainda hoje como uma das mais sádicas do sistema turco. Ela suportou violências terríveis, às quais prefiro não relatar aqui. Viu muitos de seus companheiros não aguentarem e sucumbirem – à morte ou à traição. Num dos famosos episódios de tortura, descrito detalhadamente eu sua autobiografia, Sakine cuspe repetidamente no rosto do seu violentador, em sinal de enfretamento. Notícias de sua rebeldia se alastraram em terras altas e, rapidamente, não havia quem ignorasse sua história, tornando-a símbolo de liberdade e força para suas conterrâneas.
Ao recuperar sua liberdade, voltou a liderar o KWFM que, com o retorno de Sakine, conseguiu se organizar de forma autônoma. Ela e outras mulheres subiram às montanhas decididas a criar seu mundo idealizado, propondo e praticando alternativas às hierarquias e ao poder existente, numa espécie de “acampamento experimental”.

“Nossa abordagem do socialismo nunca foi muito utópica. Para nós, nunca foi algo muito distante. Ao contrário, tentamos ver como poderíamos concretamente alcançar o socialismo, a liberdade e a igualdade. Como poderíamos ao menos começar de nós mesmas a realizar estes princípios em nossas próprias vidas? Sempre tivemos esperanças e utopias, que não queríamos projetar nas gerações futuras. Em vez disso, começamos a realizar nossas utopias e esperanças, aqui e agora.” Depoimento de Sakine deixou em sua autobiografia.
O acampamento funcionava como uma escola onde ensaiavam para uma sociedade pautada em questões ambientais e com proposta de governança “de baixo pra cima”, executada através da participação democrática direta. Plantavam, colhiam, ensinavam umas às outras, desenvolviam estratégias de defesa. Rapidamente os rumores do que estava em curso se espalharam, e o campo-experimental foi submetido a bombardeios ferozes pelas forças aéreas turcas. “No entanto, jineoloji ganhou o velho mundo, e a crítica dialética do poder da perspectiva das mulheres penetrou a sociedade curda, abrindo espaço para mudanças radicais”.
Nos anos 90, Sakine empregou esforços na organização do movimento curdo na Palestina, Síria e em Rojava. Buscava atrair mais mulheres à luta do PKK e dizia acreditar ser possível para as mulheres Curdas “recriar a si próprias”.

Como descreve um de seus mais antigos companheiros de luta:
“Ela tinha uma personalidade coletiva e comunitária que criava solidariedade com todos ao seu redor, mas também era teimosa e indomável quando se tratava de expressar suas críticas e discordâncias. Ao longo de sua vida, ela encorajou seus companheiros a se emanciparem. Estava sempre pronta, como se estivesse partindo, mas trabalhava como se pretendesse ficar para sempre.”
Em 1998, ela assumiu a missão de liderar o movimento pela libertação curda na Europa e obteve asilo político na França. Protagonizou muitas conquistas até a data de seu brutal assassinato, em 2013.

Continua! No próximo texto da série abordaremos alguns pontos importantes na herança que Cansiz deixou para a revolução feminista curda. Também falamos um pouco sobre “Jinwar”, ecovila feminista que têm chamado a atenção do mundo.
Até mais =)

Referências Bibliográficas
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Isik, Ruken. “A luta curda por democracia e igualdade de gênero na Síria
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Prado, Maria Alice. “Ypj: Conheça As Mulheres Curdas Que Lutam Pela Independência E Combatem O Patriarcado E O Estado Islâmico”. Setembro de 2020. Contra Ponto Digital. Link:https://contrapontodigital.pucsp.br/noticias/ypj-conheca-mulheres-curdas-que-lutam-pela-independencia-e-combatem-o-patriarcado-e-o
YB Rocha. “Jinwar: a vila criada por e para mulheres no Curdistão”Maio de 2018. Agência Pública. Link:https://www.brasildefato.com.br/2018/05/10/jinwar-a-vila-criada-por-e-para-mulheres-no-curdistao

Uma resposta para “Sakine Cansiz e o Grito Das Mulheres Curdas – Parte 1”
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