“…mas não sabiam que eram sementes”
A morte das três mulheres curdas (Sakine Cansiz, Fidan Doğan e Leyla Şaylemez) ataca toda militante que luta contra o patriarcado, o capitalismo e o fascismo. Seu legado é marcado pela construção de uma sociedade democrática, agroecológica e feminista que germinou (e continua germinando) muitos frutos. Um deles é batizado de Jinwar, a vila de mulheres livres.
“Em 2014, a população predominantemente curda, mas multiétnica do nordeste da Síria proclamou a autonomia democrática dos cantões de Cizire, Kobani e Afrin, reconhecida como Rojava”, onde hoje vivem cerca de 3,5 milhões de pessoas. Este território é autogerido por um contrato social que tem por princípios garantir a coexistência de culturas, religiões e linguagens diversas: muçulmanos curdos e yazidis, árabes principalmente sunitas, assírios, aramaicos, cristãos, armênios, caldeus. Há também comunidades de turcomanos, chechenos e circassianos.



No passar dos anos, as conquistas curdas ocorrem como consequências de um longo processo de revoluções e resistência. Neste espectro, o povo passa a viver uma estrutura social diferente das realidades conhecidas pelas populações ocidentais. Como herança da luta de Sakine e das feministas curdas, quem sustenta a base dessa estrutura são as mulheres.
Os pilares fundadores de Rojava são ecologia, a libertação da mulher e o confederalismo democrático. No livro “Confederalismo Democrático” (2011), Öcalan descreve como princípios regulamentadores um “sistema de auto-organização democrática baseado em princípios como multiculturalismo, feminismo, economia compartilhada, ecologismo, democracia direta, autonomismo, autogestão e autodefesa.”
Em 2018, Ocalan e o Movimento de Mulheres Curdas criam, dentro Rojava, a primeira aldeia das mulheres: Jinwar (das palavras Kurmani, “Jin” significa “mulher” e “War” significa “lugar”, sendo a definição de Jinwar “Lugar das Mulheres).



Jinwar é descrita como uma “ecovila” e sua missão é ser a casa de acolhida para todas as mulheres que estejam precisando se reconstruir. Há mulheres que vão com seus filhos, muitas fugindo das opressões impostas pelo Estado Islâmico ou de casamentos violentos. Algumas outras apenas estão interessadas em aprender. Todas são bem vindas. “As casas são construídas coletivamente, com o uso de técnicas e fontes de energia ecológicas, os alimentos são cultivados e preparados em cozinhas e padarias coletivas. Há bibliotecas, salas de aula e parques para as crianças e um centro de autoformação para as moradoras, onde ocorrem as assembleias mensais responsáveis pela gestão do local. A presença de homens em Jinwar é permitida apenas temporariamente, como visitantes ou colaboradores em alguns trabalhos.”



“Jinwar é uma experiência inovadora que contém muitos elementos de uma sociedade livre e ecológica, juntamente com as contradições e dificuldades encontradas nas circunstâncias de conflitos em curso. Lá, o projeto de ecologia social é duplamente estratégico, pois ajuda a criar uma nova sociedade e um modelo de autodefesa.” Há diversos relatos sobre Jinwar disponíveis em português, como aqui, aqui, e aqui.
Apesar do contexto violento em que emerge, Jinwar é legitimado como experimento radical fundamentado em princípios de amor e sororidade.
A cidadela resistiu ao Covid-19, embora haja outros desafios maiores em seu caminho. A região é alvo de frequentes ataques pelo exército Turco e forças Jihadistas, que agem interrompendo o abastecimento de água potável, causando queimadas nas plantações ou através de bombardeios. Jinwar resiste como Sakine Cansiz, na coragem das mulheres curdas.



Curdistão grita para o ocidente: A revolução será feminista, ou não será.
Todas as imagens presentes nesta postagem são fotografias retiradas do vídeo “Jinwar”, construído por residentes locais e que conta um pouco sobre o que é o projeto e como vivem as mulheres e crianças. O vídeo é aberta e está disponível aqui.

Referências Bibliográficas
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