O mundo funcional

O menor apartamento de Londres está à venda, essa foi a chamada da reportagem da Revista Vogue Casa veiculada no site globo.com que me chamou a atenção semana passada. Na imagem, uma casa de arquitetura vitoriana, que certamente foi dividida ao longo do tempo para abrigar vários apartamentos. Nas imagens internas, um corredor. Na parede, um aquecedor e ao final uma janela parcialmente celada pela cama acoplada na outra parede, suspensa em cima dos armários. Muito parecido com a epifania perturbadora que eu tive quando me dei conta da expansão imobiliária na cidade em que vivo. Conjuntos e mais conjuntos de apartamentos sendo construídos como se uma imigração em massa fosse ocorrer a qualquer momento e a cidade estivesse esperando centenas de milhares de famílias. Na verdade, a maioria ficará vazia como investimento para proprietários que já tem casa própria. Pequenos condomínios de quatro andares com nomes em línguas estrangeiras para dar a ideia de exclusividade e elitismo. Condomínios fechados para pobres. Quem sabe sabe que os verdadeiros condomínios fechados são de mansões, com lojas, shoppings, farmácias e academias próprias e empregados vindos do mundo real “lá fora”. Verdadeiras cidades particulares criadas para dar uma experiência européia ou estadunidense a classe média alta brasileira.

Mas voltando a minha epifânia perturbadora, criei em minha mente a estranha previsão do futuro, uma distopia onde trabalhadores passariam 14 horas em escritórios, quem sabe desevolvendo softwares de realidade virtual, e assim a casa não precisaria ser tão grande assim. Em nome da modernidade, da eficiência, certamente o mercado inventará o nanoapartamento. Com sua digital, o trabalhador destravará sua porta corrediça (tudo funcional para minimizar o espaço), que se abrirá em um corredor de cerca de 80 cm de largura. Tudo milimetricamente desenhado para proporcionar conforto ao feliz morador. Na primeira estação, um local para depositar os pertences pessoais (qualquer um que ainda possa existir) e os sapatos. Na segunda estação a muda de roupas, que será lavada e seca em uma máquina acoplada à parede e colocada na esteira lateral embutida para ser entregue ao morador no dia seguinte junto com seus sapatos esterelizados. Não existirão mais celulares ou carteira com cartões magnéticos. Tudo funcionará em chipes subcutâneos e implantes oculares. Na terceira estação, um pequeno banheiro com ducha e sistema de secagem automático e na saída, o pijama. Não haverá necessidade de cozinha, pois todas as refeições são feitas em restaurantes coletivos perto do escritório, para minimizar o tempo perdido com as refeições. Um copo de água antes de deitar será a última lembrança do sistema analógico antiquado de auto-cuidado que ainda permanecerá neste novo estilo de vida do homem moderno. Na última estação, uma janela parcialmente bloqueada pela cama acoplada à parede, onde termina a esteira automática onde as roupas e sapatos, já limpos para o dia seguinte, esperam seu dono para mais um dia de trabalho entusiasmado. Não há caminho de volta pelo corredor do nanoapartamento, assim o morador sai por uma segunda porta corrediça que dá caminho ao elevador de saída. Desta forma, essa estrutura moderna e eficiente se constitui de uma grande caixa, com pequenas caixas internas. Para garantir conforto e dignidade ao morador, ao final da sua vida, sua cama acoplada à parede se transforma em outra caixa, que pode ser retirada facilmente pelo sistema de esteiras corrediças e depositada com todo seu conteúdo no elevador apropriado para posterior descarte. O apartamento será então reciclado para receber seu novo morador que acaba de entrar feliz no mercado de trabalho.

O mercado garante exclusividade e segurança contra protestos e outras selvagerias que ainda perduram no mundo “lá fora”. Todo esse conforto e comodidade é somente para uma elite de trabalhadores pensantes. Certamente não querem viver nas caixas minúsculas onde os trabalhadores braçais vivem com suas famílias em meio a dejetos e excesso de objetos. Trabalhadores especialmente competentes e geniais podem ascender para caixas maiores, tudo muito apropriado, pois quanto maior a responsabilidade de gerenciamento de ideias e pessoas maior a necessidade de espaços mais amplos. Assim, espaços levemente maiores estão disponíveis por um preço proporcional, tudo muito justo baseado no mérito de cada um.

Pessoa ajoelhada dentro de um quadrado de concreto. Sua cabeça encostada em uma face da parede e suas mãos nos joelhos dão ideia de desolação, desconforto.

Impressionante? Assustador? Mais ou menos? Acertou o último que não se impressiona facilmente com qualquer vidente meia boca, afinal este futuro que eu previ está bem aqui. O homem já vive em caixas encaixadas dentro de caixas maiores. Natural que as caixas tenham ficado cada vez menores em nome da eficiência e maximização de espaço, tempo e lucro. A paixão do homem por caixas é tão grande que ele abandonou a ideia de pátios sujos há décadas e agora vive dentro delas. Ele também vai de um local a outro em caixas individuais e exclusivas chamadas carros. Ao final da vida, o homem descansa dentro de outra caixa em um buraco em forma de caixa. Está sufocado? Eu também.

Cintia é ecóloga e professora. Mãe de meninas. Antirracista e feminista. Escreve porque não há outro caminho, ou porque eles são muitos. Ela/Dela

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