Na escola aprendemos a “História”, desde a idade da pedra, chamada de pré-história, até a criação da escrita, quando finalmente os “Historiadores” passaram a reconhecer a fundação desta grande instituição que é a História da Humanidade. Para eles a história começa com a escrita, pois não haveria meios de se transmitir o conhecimento de forma confiável se não fosse por meio da escrita.

Mas isso é assunto para outra conversa e quem sabe outra pessoa. Meu interesse por história sempre foi grande, mas, recentemente, e depois de uma série de encontros fortuitos com pessoas e livros magníficos, meu interesse focou em um evento que eu particularmente entendo como um ponto de inflexão da História da Humanidade, as Incursões Marítimas. Aqui vale um adendo, relembrando Chimamanda Ngozi Adichie, há perigo em contar apenas uma história, pois elas são múltiplas. Assim, meu interesse passou a ser aquelas histórias não contadas dentro das Histórias das Humanindades, assim mesmo no plural, como somos todos nós.

Vale a pena ressaltar também que quando me refiro às Incursões Marítimas como um ponto de inflexão, faço de um ponto de vista macro, olhando a linha do tempo de longe, como um cientista gigante e isento. Um artifício muito usual, porém perigoso. Perigoso, pois, assim como a ciência tem história, o cientista também tem. A ciência e o cientista que a faz têm história, têm contexto e têm cultura. Assim, se nos aproximarmos lentamente desse ponto de inflexão nesta tão citada linha do tempo, poderemos ver que este ponto é uma constelação de eventos ao longo de múltiplos anos e lugares, que em conjunto mudaram lentamente o curso da humanidade. E chegarmos perto o suficiente perceberemos que a linha do tempo é mais entremeada, curvilínea e quem sabe até mesmo circular. Ficarão os cientistas pasmos? Eu fiquei.

Assim as incursões marítimas são para mim os eventos recentes que mais impactaram minha vida como indivíduo por dois motivos. Primeiro, porque dentro do meu coração eu sou biogeografa e segundo porque sou negra. E a sequência de eventos que foram desencadeados com as grandes incursões matítimas pelos europeus, impactaram não só a economia e relações sociais do novo globo recém-ampliado, mas também a ampliação de alguns conhecimentos científicos e o esquecimento de tantos outros.
Hoje, peço desculpas por deixar nossa Mama África para os próximos posts simplesmente porque quando eu começar a falar sobre ela será para sempre. Hoje preciso introduzir o primeiro dos aspectos que me deixaram interessada em história. Dentro dos navios que cruzaram o oceano Atlântico havia toda a sorte de homens, marinheiros habilidosos, imediatos, cozinheiros, todos corajosos usando as técnicas, máquinas e conhecimentos mais modernos à época para chegar com segurança ao seu destino. Entre eles, uma sorte que o leitor deste artigo pode estranhar estava o amante das plantas e animais, o catalogador oficial, aquele que passava as tardes explorando, coletando, descrevendo, armazenando e desenhando o mundo. O Naturalista. Incumbido com a mais nobre das missões em nome das Coroas financiadoras das caras viagens transatlânticas, descrever, relatar e trazer de volta amostras das possíveis riquezas a serem exploradas nas novas terras. Claro que o naturalista tinha sua própria agenda e seu interesse residia no prazer de descrever espécies novas e ampliar o conhecimento da época. Todos conhecemos naturalistas famosos, como Charles Darwin, Alfred Wallace, Alexander Von Humboldt, Daniel Solander e Henry Bates. Homens cuja contribuição para a ampliação do conhecimento científico é inegável, mas…
Ciência tem contexto
Era um verão quente e a tarde abafada nada contribuía para acalmar os nervos de Charlotte Darwin que nervosamente embalava um recém-nascido em seus braços em um quarto amplo cujas janelas ofereciam uma vista perfeita para um jardim que ao longe margeava uma floresta. A paisagem trazia memórias agridoces a Charlotte, perdida em seus pensamentos enquanto seu bebê chorava sem consolo, ela foi trazida a um tempo em que pequena colecionava mariposas com seu irmão mais velho, Charles, e junto com ele ponderava sobre as leis que controlavam a presença das variedades de mariposas nas florestas de Leicester. Seu irmão, há muito tempo longe, nenhuma carta descrevendo seus achados, nada para excitar sua mente e iluminar seus dias. Incumbida pela sociedade e pela família a cumprir sua mais importante missão, gerar, cuidar e nutrir em silêncio o futuro. A naturalista dentro de si, sufocava.

Charlotte nunca existiu. Mas você pode imaginar quantas Charlottes não embarcaram em navios, não cruzaram o Atlântico, não descreveram novas espécies, não desenharam mariposas exóticas, não relataram com detalhes suas ideas? Alguns dirão que não podemos julgar o passado pelas regras do presente. Mas é exatamente o que eu vou fazer nessa série de posts. Perceber, apontar, criticar, buscar cada elo da corrente que prende nossos tornozelos desde o amanhecer da humanidade. É preciso olhar o passado e desenterrar cada elo dessa corrente, descobrir sua origem e seu elo mais fraco. Só então usar o machado mais pesado para finalmente nos tornarmos livres e honrar cada uma de nós que morreu sem sê-lo.
Mas se Charlotte nunca existiu, Jeanne Baret sim. Nos anos iniciais do século XVIII, Jeanne embarcou no navio La Boudeuse do capitão Louis Antoine de Bougainville vestida de homem para acompanhar o naturalista Philibert Commerçon. Jeanne acabou se tornando uma botânica reconhecida e a primeira mulher a circunavegar um continente de navio. Pouco se sabe sobre a infância de Jeanne, mas aparentemente ela era de origem humilde e precisou trabalhar de governanta para o naturalista Commerçon. No Suriname sua identidade secreta foi descoberta, assim, ela e seu patrão tiveram que deixar o navio, pois era contra as leis da época ter uma mulher como membro de uma expedição científica.

Um exemplo de naturalista mais bem sucedida foi Maria Sibylla Merian ainda no século XVII. Membro de uma família da elite alemã, Maria Sibylla recebeu educação do seu padastro e aos 13 anos descreveu o processo de transformação de lagartas em borboletas, fenômeno posteriormente reconhecido como metamorfose. Maria Sibylla descreveu e ilustrou o ciclo de vida de mais 186 espécies de insetos publicando-os em dois volumes. Após seu casamento se dedicou a ilustrar plantas e flores dos jardins das casas em que visitava como professora de pintura. As histórias destas mulheres, apesar de raras, foram bem documentadas por biógrafos interessados no papel das mulheres na produção do conhecimento.

Contudo, elas contam apenas uma parte da história, uma história européia e abastada, contada como se fosse única, universal, hegemônica. Quantas pessoas nativas de África ou das recém-descobertas Américas não eram exímias botânicas, zoológas, curandeiras? Quantas destas pessoas eram mulheres que nunca tiveram seus conhecimentos reconhecidos, gravados na memória humana, mas certamente perpetuados sob o nome dos conquistadores? Como Alexandrina, por exemplo, tão bem descrita por Patrícia Sampaio. Alexandrina era criada, ou escrava, difícil dizer, na casa do naturalista Louis Agassiz e acabou se tornando membro valioso da equipe durante sua expedição na Amazônia no século XIX, graças a sua habilidade de reconhecer espécies botânicas e preparar as amostras em campo.

Alexandrinas, Marias, Jeannes, mulheres à frente do seu tempo e ao mesmo tempo mulheres frutos do seu tempo. Um tempo em que o conhecimento das mulheres era sobretudo invisibilizado por uma estrutura social que promovia a hierarquia entre os seus membros colocando assim o homem branco europeu no pedestal da história como a única fonte confiável de ciência.
A Ciência tem antolhos
Falando em única fonte confiável de conhecimento, me lembro do burro, animal de tração que só enxerga a estrada a sua frente. Tudo que está nas laterais é alheio ao burro e para ele não existe. A mesma falta de visão ampla de que sofre o animal de tração com seus tapa-olhos laterais (antolhos), sofre uma pessoa presa a um contexto cultural, principalmente aquelas pessoas que são privilegiadas pela estrutura social e que ocupam a posição hegemônica da sociedade. Incapazes de olhar para os lados devido aos antolhos que sua posição no topo da cadeia social lhes proporcinou eles seguem fazendo teorias pelas lentes da sua visão limitada. Claro, todos nós estamos fadados a ter uma visão limitada sobre algum assunto, este texto também pode ser um caso, porém este texto não tem o objetivo de cancelar, mas de apontar como as visões limitadas podem nos impedir de enxergar aspectos importantes dentro das nossas próprias áreas de saberes.
Recentemente em uma publicação na revista Science, Gil Rosenthal e Michael Ryan mostraram como uma visão limitada aliada a uma profunda misoginia pode ter impossibilitado que Charles Darwin fizesse descobertas ainda mais importantes que teriam possibilitado o avanço do conhecimento em evolução. Neste artigo, Rosenthal e Ryan mostram como uma visão social que substimava a capacidade intelectual feminina impediu Darwin de entender melhor o processo de seleção sexual em humanos. Darwin descreveu como as fêmeas de vários grupos animais tinham papel fundamental na seleção sexual de machos, mas falhou em extrapolar essa descoberta para a espécie humana, pois este fato contrariava as expectativas puritanas depositadas nas mulheres na Europa Vitoriana. Para Darwin as mulheres eram passivas na escolha do parceiro (sabe nada inocente, quem assistiu Bridgerton que o diga!). Fora que ele empurrou para baixo do tapete comportamentos promíscuos das fêmeas e coito entre animais parceiros do mesmo sexo e também comuns entre pessoas da sua época.

Sem dúvida as descobertas de Darwin advindas da sua expedição a bordo do Beagle para regiões remotas recém descobertas e posteriormente publicadas em suas duas obras mais famosas, A origem das espécies e A descendência do homem e seleção em relação ao sexo são um exemplo de uma das mais bem documentadas e importantes contribuições para a biologia evolutiva. Mas a falha em não extrapolar o padrão de comportamento ativo das fêmeas não-humanas para as mulheres acabou por ajudar a validar o valor da mulher na sociedade da época. Muitas dessas noções permanescem entremeadas em nossa sociedade até hoje. A construção de um estereótipo não se desfaz da noite para o dia. Hoje muitas Charlottes, Marias, Jeannes e Alexandrinas podem ir a campo e fazer expedições para regiões remotas do globo e certamente publicar e ter suas ideias discutidas entre os seus pares, mas elas ainda têm seus tornozelos presos às correntes da história. Embaixo da terra batida suas irmãs seguem em silêncio. Nosso papel é dar voz a elas. Charlotte, com seu filho no colo, agradece cada palavra que você proferir em nome dela. Cada expedição que você puder fazer por ela.
Referências do texto
Adichie, C. N. (2019). O perigo de uma história única. Companhia das Letras.
Darwin, C. (1863). The descent of man.
Darwin, C. (1909). The origin of species (pp. 95-96). New York: PF Collier & son.
Rosenthal, G. G., & Ryan, M. J. (2022). Sexual selection and the ascent of women: Mate choice research since Darwin. Science, 375(6578), eabi6308.
Sampaio, P. Crônica de gente pouco importante VI: Alexandrina, a aprendiz de naturalista. Acessado em 30 de março de 2022.
Curadoria de Nicole Manes
Filme “Nas montanhas dos Gorilas” – Para saber mais sobre a pesquisa de Dian Fossey primatóloga que estudou o comportamento de Gorilas.
Podcast – Vinte Mil Léguas, temporada 1, que conta histórias das expedições de Darwin
Pesquisar pelas ilustrações de Maria Sibylla no Pinterest
Pesquisar sobre John Edmonstone, homem negro e escravizado, africano da Guiana, que ensinou taxidermia para Darwin, o que foi crucial para o aperfeiçoamento do trabalho dele. (acesse o link aqui)
Pesquisar sobre Al-Jahiz, filósofo naturalista mulçumano do Iraque autor de “Livro dos Animais”, que descreve um processo de evolução biológica por seleção natural 1000 anos antes do Darwin. (acesso o link aqui).


