Este ano muitas pessoas vão completar 42 anos, incluindo eu. Para mim, 2022 pode ser o final de um ciclo ou o pico de um ciclo maior que ainda não acabou. Um ciclo temporal que só reconhecemos quando ele passa. Assim entre altos e baixos, finais e recomeços, estamos todos viajando no tempo (https://www.weforum.org/agenda/2015/09/stephen-hawking-we-are-all-time-travellers/), só que ao contrário dos filmes de ficção, não controlamos o momento no tempo em que queremos estar no passado ou futuro e nem a velocidade do salto. Nesta vida estamos seguindo constantemente dentro de um veículo biológico e finito, e a cada passo que damos nesta linha, este veículo se desfaz lentamente, sucumbindo diante do vento corrosivo do tempo. Enquanto seguimos vivendo nossas lidas diárias e mundanas, distraídos, nosso metabolismo vai acumulando falhas, nossas moléculas vão ficando instáveis e de repente quando nos vemos diante do espelho já não somos mais os mesmos. Já dizia o poeta, Arnaldo Antunes, “no espelho essa cara já não é minha… (https://www.youtube.com/watch?v=Y6GTKBrN4J4)”.
Esta matéria da Folha de São Paulo sobre o envelhecimento (https://cienciafundamental.blogfolha.uol.com.br/2020/05/27/por-que-envelhecemos/)
mostra, como nós, os seres humanos, assim como outros organismos altamente especializados possuem essa característica nefasta de envelhecer e se desgastar ao mesmo tempo. Alguns seres menos complexos podem viver anos mantendo a mesma aparência. O sonho da sociedade moderna das intervenções estéticas! O segredo destes organismos são células pouco especializadas, células que podem regenerar com facilidade porque se mantiveram em uma condição “anterior” de “potência”, de “possibilidade”, as famosas células-tronco. As células destes organismos têm pouca especialização e assim eles não podem realizar feitos cognitivos como os nossos e nem aguentar faixas de variação ambiental muito grandes, muito menos curtir o Arnaldo Antunes, mas eles não envelhecem com a rapidez das nossas células magníficas altamente especializadas. Nossas células mais famosas, como as fibras musculares e os neurônios têm pouca capacidade de divisão e assim, os tecidos têm pouca capacidade de regeneração. O nosso tempo está contado, Um dia iremos cair e nos desfazer nessa linha do tempo universal, interestelar e, muito embora uns mais chegados irão chorar por dois ou três dias, alguém vai nos substituir na caminhada eterna. Tic-Tac.
A única certeza que temos é que, se não morrermos jovens, vamos envelhecer. O processo de envelhecimento é universal em quase todos os organismos biológicos e a menos que você deseje ser uma esponja, simples com suas células pouco diferenciadas, você, ser humano, vai envelhecer. Porém, apesar do processo ser universal, o modo como lidamos com este fenômeno é totalmente cultural. Existem culturas onde os mais velhos são venerados como pessoas sábias e tem uma posição determinante na tomada de decisão da comunidade, na sociedade Iorubá, por exemplo (leia A Invenção das Mulheres”, da socióloga nigeriana Oyèrónké Oyewùmí).
Porém na sociedade ocidental, divida pelo sexo biológico, e assim, sexista, machista e patriarcal, o envelhecimento, principalmente da mulher é tabu. As meninas são hipersexualizadas desde a infância e as mulheres jovens, assim como as mais velhas são “obrigadas” a parecer ter 25 anos eternamente. Claro que com o avanço das técnicas de medicina está cada vez mais fácil intervir na aparência, o que não é necessariamente ruim e sempre foi uma constante na civilização humana (e.g. tatuagens, piercings e rituais de marcação e de passagem). Contudo, quando se trata de uma imposição massiva e quando essa imposição deforma não só o corpo como também a mente de um grupo social específico (e.g. as mulheres), homogeneizando a variação de formas e aparências isso mais me parece um genocídio (de forma? de narrativas? de variabilidade? de possibilidades?).
Este ano eu completo 42 anos caminhando nessa linha do tempo, sorrindo, chorando, amando, sofrendo, crescendo, mas certamente me degradando lentamente. Nesta idade as mulheres começam ou continuam uma constante perda de vitalidade (resistência, massa muscular, hidratação, tônus muscular e da pele). Além do mais, muitas delas estão há dez anos ou menos dos primeiros sintomas da menopausa. Para todas, sem exceção, das mais resolvidas as mais inseguras é uma fase de aceitação e de perdas. É quando algumas enfrentam uma amarga separação, já que os homens são socialmente condicionados a não aceitarem a velhice de suas parceiras e procuram parceiras mais jovens. Algumas enfrentam a mudança dos filhos, ou aquelas que deixaram para ter filhos mais tarde em prol da carreira, enfrentam a criação de filhos pequenos e a conciliação da criação deles com uma carreira que pode estar ainda frágil e em construção. Algumas já têm que lidar com pais idosos e doentes, lembrando que o cuidado com familiares idosos recai mais frequentemente sob a responsabilidade da mulher.
Foi neste contexto de turbilhão de emoções, que eu decidi fazer um ensaio e registrar o que eu pensei que seriam “os-últimos-momentos-de-uma-beleza-que-eu-nunca-pensei-que-tive-e-que-certamente-vou-perder-daqui-a-pouco” (veja aqui). Para completar, quem estuda relações de raça no Brasil também sabe que a auto-estima da mulher negra precisa ser trabalhada além do normal e essa identidade constitui mais uma camada de opressão que o sistema machista e patriarcal (e colonial-imperialista) impõe sob as mulheres de forma geral. Assim demorou 42 anos para eu pensar que poderia ser bonita, mas que essa beleza poderia estar acabando por causa da minha idade. Mas, mesmo com a leve edição que eu sei que a fotógrafa usou, essa foto é uma asserção, é um protesto, é onde eu finco meu pé.
A beleza, contudo, é uma construção social. Ela foi construída e modificada ao longo do tempo através de vários mecanismos de controle social. Hoje vivemos em uma sociedade hiperconectada e tanto para o bem quanto para o mal, essa hiperconexão pode ajudar a homogeneizar ainda mais a sociedade, impondo modelos de beleza cada vez mais estreitos, ou pode ajudar a difundir a ideia de diversidade, incluindo também a diversidade etária dentro do conceito do que é belo.
Assim, penso mais como um desejo, uma prece, que se a beleza e a juventude são, porque a sabedoria, o humor, ou o altruísmo ou a capacidade de comer pudim de leite sem enjoar não poderiam se tornar um dia construtos sociais tão fortes quanto eles enquanto elementos estruturantes da civilização?
Uma certeza que tenho, prefiro ter células altamente especializadas e ser capaz de refletir sobre a minha condição enquanto viajo na linha do tempo e sinto o vento corrosivo do tempo transformar minha juventude em pó, do que ser um ser indiferente e indiferenciado… igual a todos os outros, que nunca caminhou consciente na linha do tempo.
Contudo, consciente ou não, todos humanos e esponjas igualmente, como bons viajantes, voltarão ao pó… de estrelas. Ainda bem, por que você as viu (https://www.nasa.gov/webbfirstimages)?
