Recentemente, o mercado de comunicação de ciências vem se ampliando e passando por diversas mudanças, ocasionadas por fenômenos políticos e avanços tecnológicos, que impactam o próprio mercado de trabalho como um todo. E como pensar o mercado de DC é pensar em algo que está em construção, fomos atrás de referências de experimentações de mercados similares, como o do jornalismo.
O modelo sustentado pela publicidade
Com o crescimento do ecossistema digital, o modelo de negócio que foi o cerne da comunicação, durante anos, quebrou. Esse modelo, baseado na publicidade, produzia comunicação de massa para um público pluralizado. Assim, os veículos de comunicação precisaram se adaptar e/ou, até mesmo, redesenhar novas maneiras de se sustentarem.
Esse processo ocorreu com a migração dos veículos de informação para o ecossistema digital. A comunicação passou, então, a enfrentar a intensa concorrência com as plataformas digitais, que criam novos hábitos de acesso à informação, tornando-se necessário um olhar atento para um outro lado, o público. Essa atenção tem como objetivo verificar os desejos dos consumidores, compreendendo o que é apreciado por uma determinada audiência e como desenvolver produtos e serviços que satisfaçam essa demanda. A busca por uma comunicação mais horizontal, na qual o consumidor possa atuar como agente, e não somente passivo à comunicação.
No Brasil, a mídia impressa, rádios e canais de televisão organizavam sua renda principalmente a partir de publicidade e a audiência não precisava pagar para acessar a comunicação desses veículos.
Com o aumento das opções para o consumo de informações, tanto o público quanto a receita publicitária foram sendo descentralizados, gerando uma fratura no modelo. Com isso, foram-se aprimorando produtos e serviços que exploram o mercado de informação através da inclusão das mídias digitais.
Um olhar atento ao público
O mercado atual necessita entender o público-alvo, quais são seus desejos, seus anseios e o que esse grupo de pessoas mais valoriza. Já que, compreendem que o consumidor só investirá energia e dinheiro em algo que considere valioso. Assim, torna-se necessário o desenvolvimento de estratégias para, não só, redesenhar modelos de negócios, como também, manter essa atividade contínua e flexível de modo a adaptar-se rapidamente ao ambiente competitivo e às mudanças bruscas comuns em áreas de franco desenvolvimento.

Comunicação baseada no crowdfunding
Algumas estratégias foram sendo testadas e aprimoradas como, por exemplo, o jornalismo crowdfunding, que se tornou uma prática mundial nos últimos anos e pode ser caracterizado como um ponto de interseção entre a inovação e a comunicação. O crowdfunding é um processo no qual o público colabora financeiramente para um determinado projeto, seja filme, obra de arte ou produto jornalístico. Seus idealizadores apresentam as ideias e solicitam auxílio financeiro ao público para sua realização. Na grande maioria das vezes, usa-se a internet para difundir a ideia e atrair um maior volume de doações para o projeto.
Mas, oferecer suporte para algo no qual se acredita e, de alguma maneira, se sente envolvido e representado, não é novo. Porém, essa ação ganha amplitude, potencializada pelo alcance massivo da internet. A possibilidade de produção, disseminação e suporte para ideias, atua na construção de comunidades e conexões. O público se observa participante do projeto e se sente capaz de atuar na viabilização dos produtos que admira. Mais uma vez a sensação de pertencimento e horizontalidade é valorizada.
Modelo de atuação independente – freelance
Outro modelo que vale destacar é o do freelancer, que tem a possibilidade de produzir comunicação para diferentes públicos sem estar vinculado e submetido às decisões de um único grupo ou empresa. Entretanto, a variedade de caminhos pode se tornar uma encruzilhada para o profissional, fazendo com que o mesmo acumule ainda mais funções. O acúmulo de funções aumenta o volume e complexifica o trabalho, muitas vezes com o mesmo salário, pois o comunicador além de escrever para o jornal, também escreve para sites e mídias sociais. Assim, as mudanças nesse mercado podem levar à precarização das condições de trabalho advinda das demissões e redução de postos de trabalho, levando muitos a acreditarem na ideia do empreendedorismo como salvação.
Startups de comunicação
Inovar é a palavra de ordem das startups. O modelo aqui é singular e inédito, com a capacidade de promover rupturas em diferentes partes do processo, como, tecnologias, estratégias e audiências.
As startups atuam na diversificação de um produto e/ou serviço, com intenção de algo inovador. Porém, é o orçamento que guiará o processo e, consequentemente, pode gerar um empecilho na realização de serviços e/ou produtos. As startups possuem modelos de negócios replicáveis e escaláveis, demonstrando potencial de crescimento muito rápido em alcançar uma escala maior que a sua região geográfica de origem. Seus ciclos envolvem desafios e decisões únicas, exigindo de sua equipe múltiplas habilidades para desenvolver estratégias diferentes de qualquer modelo de negócio até então conhecido.
Contudo, como o crescimento das startups é rápido e tem como intuito a escalabilidade, muitas vezes são necessários investimentos que as impulsionam a apresentarem propostas suficientemente persuasivas para atrair capital e conseguir transformar um mercado. Vale destacar que são empresas que seguem a trilha da inovação, buscando resolver problemas reais da sociedade, sendo necessário, para isso, uma adaptação acelerada, em certos casos, antes mesmo do lucro.
Modelo de negócio em mercados segmentados
A revolução da indústria midiática trouxe experiências dos processos de fusão, serviços e modelos de negócios diversificados para a área da comunicação. A implementação de variados modelos de negócios, com o objetivo de desenvolver mercados de nichos, tem sido uma das alternativas para as marcas estabelecerem valores que se convertem em receitas financeiras.
Assim, o comunicador atua na diversificação da sua arrecadação de renda, utilizando diferentes formas como paywall, assinaturas digitais, crowdfunding, etc. Os nichos geram diferentes taxas de renda e estabelecem, para o comunicador, como cada nicho se encaixa com cada modelo de negócio.
Desse modo, um modelo de negócio que busca investir em mercados segmentados possibilita ganhos de receitas distintas, com o intuito de gerar investimento e inovação. A ideia da segmentação que envolve variados nichos de mercado amplia as possibilidades do negócio. Dessa maneira, inovar torna-se a ação para angariar recursos por diferentes canais de negócio, com o intuito de obter financiamento, visando à manutenção da produção da área da comunicação.

Marca como indivíduo ou como empresa
É importante notar que o conceito “marca” pode ser utilizado tanto por uma empresa ou por um indivíduo, considerando que, atualmente, os comunicadores atuam para a construção de seus próprios valores e estabelecimento de confiança com a sua audiência.
Para que o produto e/ou serviço seja reconhecido pelo seu valor, torna-se necessário construir a ideia de sua utilidade, gerando fidelidade e sensação de satisfação por parte do consumidor, ampliando a percepção de valor para todas as redes de conexão envolvidas na produção informativa.
Dessa maneira, gerar valor na espiral que estrutura o modelo de negócio é o desafio do cenário atual. Tanto as empresas midiáticas como os indivíduos vêm repensando novas estratégias, visando construir valor para a área de comunicação e torná-la cada vez mais sustentável e relevante para a audiência.
Esse texto busca observar as mudanças e adaptações no mercado da comunicação e se aproximar de um sistema novo. E como falar sobre o mercado de divulgação científica é falar de algo que vem sendo construído a cada dia, novas reflexões sobre as transformações e adaptações do mercado são importantes. Assim, conhecer as tentativas e experiências de uma área tão similar, como o jornalismo, nos ajuda a pensar em novos caminhos e possibilidades para o futuro da Divulgação Científica.
Esse mês lançamos a primeira edição da Newsletter da Ciborga “#1 – Dá pra viver de Divulgação Científica?” e por lá discutimos sobre o mercado de trabalho em Divulgação de Ciência com base em uma pesquisa realizada com comunicadores de ciência no Brasil. Para ter acesso a esse e outros conteúdos, se inscreva na nossa newsletter!
